O Diretor e o Técnico
BRALIO

O presente costuma ser mais antigo do que parece.

Crônicas do presente

O Diretor e o Técnico

O Brasil perdeu para a Noruega. O tropeço, porém, começou muito antes do apito.

7 jul 2026

Brazólio sozinho na arquibancada vazia depois de uma partida de futebol.

Paolo Sorrentino veio filmar Carlo Ancelotti e encontrou o Brasil fazendo aquilo que o Brasil moderno faz com uma constância quase religiosa: transformar uma Copa do Mundo em sessão de terapia coletiva, velório de ídolo, auditoria de lateral-direito e reunião de condomínio com 215 milhões de condôminos armados de opinião.

É bonito, de certo modo.

Não bonito como futebol bonito. Bonito como ruína bem iluminada. Sorrentino entende de poder, vaidade, decadência e homens importantes tentando parecer tranquilos enquanto o teto cai. Em Nova Jersey, bastou apontar a câmera: o técnico mais calmo do planeta, o camisa 10 chorando no chão, a CBF falando em continuidade, jornalistas gritando por explicação, ex-campeões nas suítes e a Noruega fazendo o papel de país sério que chega sem pedir licença e leva embora o que a gente achava que era direito hereditário.

A Copa acabou para o Brasil nas oitavas. De novo contra europeu. Desta vez ainda houve o requinte cruel de ser no estádio onde Neymar começou pela seleção e onde terminou como personagem principal de uma promessa que envelheceu sem virar destino.

Ele chorou e disse: “Eu tentei.”

Eu acredito.

A tragédia é essa. Neymar tentou mesmo. Só que tentar, no futebol brasileiro, virou uma confissão quase ofensiva. A gente quer destino. Quer que o craque entre em campo como decreto divino e que o menino franzino de 2010 continue vivendo dentro do homem de 34 anos que apanhou, brilhou, cansou, irritou, voltou, quebrou e terminou deitado no gramado, mais símbolo do que jogador.

Seria confortável culpá-lo sozinho. O Brasil adora personalizar colapso porque dá menos trabalho do que olhar a tubulação. Bota a culpa no Neymar, no Bruno que perdeu o pênalti, no Ancelotti que colocou Neymar, no Endrick que não entrou antes, no Casemiro isolado, no lateral que não existe, no técnico estrangeiro, no influenciador, no comentarista. Cada um tem sua parte. Mas o buraco é mais organizado.

A seleção ainda entra em campo carregando uma mala que ninguém consegue despachar. Dentro dela estão 1958, 1962, 1970, 1994, 2002, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Romário, Cafu, Roberto Carlos, Marcelo e meia dúzia de comerciais que ensinaram o país a esperar obra-prima antes do apito. A mala não passa no raio-x. Pesa demais. Mesmo assim, todo mundo finge que dá para viajar com ela no colo.

Os campeões aparecem no camarote para trazer paz. A intenção é boa. O efeito é um catálogo de museu apontado para os vivos: uma Copa, duas Copas, três Copas, quatro. Não existe paz quando a múmia está na arquibancada lembrando que você precisa construir uma pirâmide com tijolo de drywall.

O time sente porque não tem um camisa 9 mundial, porque seus laterais fazem a gente olhar para o teto em silêncio e porque Casemiro e Danilo, aos 34, ainda aparecem como pilares. Pilar também racha. Sente, sobretudo, porque a geração atual cresceu vendo Neymar deixar de ser apenas jogador para virar ecossistema: atleta, produto, promessa, campanha, meme, problema, solução, novela e saudade de si mesmo.

Nada disso começou contra a Noruega. O Brasil chegou à Copa depois de quatro técnicos em quatro anos, disputas na CBF, eliminatórias ruins e uma espera messiânica por Ancelotti. Planejamento, por aqui, é uma coisa que todo mundo defende até precisar abrir mão do improviso favorito. Contratamos o maior técnico de clubes do século, quase um papa de sobrancelha, e esperamos que ele resolvesse em um ano o que a instituição passou quatro amassando com o joelho.

Ancelotti é calmo, não alquimista.

Contra a Noruega, Bruno perdeu pênalti, o Brasil criou chances e Haaland passou uma hora escondido — feito considerável para um homem com dimensões de monumento público. Então Neymar entrou. O time abriu, Casemiro ficou sem ajuda, Endrick foi parar na direita tentando cobrir Danilo e a Noruega cresceu. Zlatan resumiu a crueldade: eles faziam o jogo bonito; nós, o jogo sei lá o quê.

Aquilo não acusa apenas uma derrota. Acusa um país que já não sabe o que sua seleção quer ser quando não consegue ser genial.

O Brasil não precisa jogar como em 1970. Essa cobrança é injusta e meio necromântica. O futebol mudou. Até eu, paulistano transferido para o Rio, aprendi que não dá para exigir do presente a coreografia do álbum de família. Mas é preciso alguma identidade para os dias em que o talento não resolve. França e Argentina têm uma. O Brasil oscila entre “somos os maiores do mundo” e “está tudo acabado” com a maturidade emocional de elevador travado entre dois andares.

Quando Danilo admitiu que a seleção ainda não tinha a maturidade de França ou Argentina, houve quem tratasse realidade como blasfêmia. A camisa pesa, sim. Só que camisa pesada não marca lateral, não recompõe linha, não cobra pênalti nem fabrica centroavante por decreto.

Todo ciclo novo já nasce devendo o passado. O jogador jovem chega comparado com morto glorioso. O técnico chega devendo hexa. A convocação vira plebiscito moral, o banco vira tribunal e a coletiva vira exorcismo. Depois a CBF pede calma, como sujeito que joga álcool na churrasqueira e passa a palestra sobre prevenção de incêndio.

Agora se fala em continuidade até 2030. Talvez seja exatamente o remédio: parar de sacrificar um técnico por ciclo e de montar seleção como vitrine de shopping na véspera do Natal. Ancelotti errou convocação, leitura e o momento de recorrer a Neymar. Mas trocá-lo agora seria repetir a liturgia favorita do fracasso brasileiro: quebrar o termômetro, chamar de reforma e comprar outro igual.

Sorrentino queria o tropeço. Ganhou. O filme mais interessante, porém, começa no dia seguinte: o fisioterapeuta chegando cedo, o garoto tentando não herdar todas as neuroses do país, o técnico velho soprando café e o torcedor que xingou a televisão abrindo, cinco minutos depois, a calculadora de grupo para 2030.

Na última cena, uma sala da CBF. Ar-condicionado forte demais, copo plástico pela metade e alguém dizendo “precisamos de tranquilidade” como se o Brasil tivesse acabado de descobrir uma invenção estrangeira.