Eu não gosto de Guimarães Rosa
BRALIO

O presente costuma ser mais antigo do que parece.

Crônicas do presente

Eu não gosto de Guimarães Rosa

Levei trinta anos para admitir — e dez parágrafos para explicar.

13 jul 2026

Brazólio sentado em uma poltrona com Grande Sertão: Veredas no colo, ao lado de uma bússola e uma xícara de café.

Comprei a edição nova. Capa dura, papel bom, aquele cheiro de gráfica que ainda não decidiu se vira cheiro de estante. Sentei na poltrona que reservo só para os livros que merecem, não a que sobra para qualquer coisa que caiu no carrinho. Café do lado, celular de castigo na cozinha. Ia, enfim, resolver a única pendência que carrego escondida há trinta anos: entender Guimarães Rosa.

Não entendi.

Não é modéstia de quem quer parecer humilde nem força de expressão. Não entendi mesmo, do mesmo jeito exato que não entendi aos dezesseis, só que agora sem a desculpa mais barata da estante: “ainda sou muito novo para isso”. Não sou. Tenho idade, leitura e vaidade que bastem para saber que a culpa não é do calendário.

Podia culpar outra coisa. A pouca leitura. Um mau gosto meu, espécie de daltonismo que me impede de ver a cor embaixo da invenção. Podia, com mais elegância ainda, culpar uma limitação cognitiva — teoria bonita, que empresta ar de humildade a quem no fundo só está com o orgulho inchado. Não vou. Já não dá.

A primeira mentira que contei sobre literatura foi aos dezesseis anos, na escola, e era sobre um burro. A professora garantia que O Burrinho Pedrês era a porta de entrada mais gentil para Rosa: engraçado, comovente, a leitura mais leve do ano. Terminei o conto entendendo uma frase em cada três e, quando ela perguntou o que eu tinha achado, respondi que tinha adorado. Aprendi ali, antes de aprender qualquer coisa sobre Guimarães Rosa, o esporte nacional de quem presta vestibular neste país: mentir sobre livro difícil com cara séria o bastante para ninguém conferir. Pelo menos era o que eu fazia. Desconfio que não era o único.

Com João Cabral não precisei mentir. Morte e Vida Severina caiu no mesmo semestre, também cobrança de prova, e a história não faz cerimônia: o assunto é a morte, o cenário é a seca, nada ali pede simpatia. Mas a língua não me escondia nada. Cada palavra sabia por que estava naquele lugar e não em outro. Fui fisgado pela primeira vez por um livro que exigia atenção, não fé.

Trinta anos depois, a distinção é a mesma, só que mais nítida. João Cabral organiza a língua que já existe. Rosa inventa uma que não existe e pede que você a aprenda antes de entrar. Já ouço o coro de sempre se levantando do fundo da estante para me corrigir. Deixo que fale por si:

“Meu caro, você não entendeu Rosa porque a sua leitura é pequena demais para o tamanho da invenção dele. A língua dele expande o país. Quem exige mapa não merece floresta.”

Bonito discurso. O problema é que ele funciona para qualquer livro difícil que muita gente elogia e pouca gente admite ter abandonado. Troque “Rosa” por qualquer clássico impenetrável da estante e o parágrafo se sustenta sozinho, sem mudar uma vírgula. Isso, por si, já devia acender uma luz amarela.

Então pronto: não gosto. Nunca gostei. Não é o sertão que me assusta, é a exigência de entrega total antes de eu sequer saber se aquele mundo merece a minha. João Cabral pede atenção, e eu dou de bom grado. Rosa pede a alma inteira adiantada, à vista.

E tem gente que ama os dois ao mesmo tempo, sem cometer heresia. Sorte dessa gente, que cabe em duas devoções onde eu só caibo numa. Não é o meu caso. Acho que nunca foi.

Reli o que escrevi até aqui para fechar o texto e foi aí que enxerguei o problema. Eu queria escrever uma frase. Uma só: “não gosto de Guimarães Rosa”. Cinco palavras, ponto final, autonomia de adulto, nada mais precisava ser dito. Só que precisei de uma professora, um burro, uma seca e um coro imaginário para ter coragem das cinco palavras, e ainda estou aqui, dez parágrafos depois, espiando se você comprou o argumento.

Não escrevi um veredito. Escrevi um Riobaldo.